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Mapa da Desigualdade Eleitoral mostra discrepância em diferentes regiões do país 

06.10.2025
Alumni

No Brasil, o êxito nas eleições ainda muda de acordo com o território. O Mapa da Desigualdade Eleitoral Municipal, produzido pelo RenovaBR, mostra que a representatividade política varia fortemente conforme a região do país. A análise das eleições de 2016, 2020 e 2024 mostra que as desigualdades de gênero e raça permanecem marcantes na ocupação de cargos municipais, tanto no Legislativo quanto no Executivo. E mesmo quando há avanços em algumas áreas, outras seguem mantendo estruturas excludentes. 

Os dados analisados chamam  atenção para o fato de que apenas 21 cidades (0,3%) do país alcançaram o equilíbrio de raça e gênero. Ou seja, são esses os locais em que, de alguma maneira, a política municipal consegue refletir o retrato da população. Ainda assim, há de se questionar onde estão os maiores e menores níveis de equidade. 

Nas regiões Norte e Nordeste, a maioria dos vereadores eleitos se declararam PPI (pretos, pardos e indígenas), demonstrando uma representatividade mais próxima da composição demográfica do território. Já nas regiões Sul e Sudeste, a presença de parlamentares PPI é significativamente menor, mesmo em regiões onde a população negra é expressiva.

Essas desigualdades estruturais ajudam a explicar as dificuldades enfrentadas por lideranças locais para garantir que as pautas de inclusão racial e de gênero cheguem às agendas municipais.

Desigualdade eleitoral no Brasil: onde há mais representatividade?

No Sudeste, onde a população negra é expressiva, mas segue sub-representada, a vereadora Graziela Costa (Salto/SP) tornou-se a primeira mulher negra eleita na cidade em mais de três séculos de história. “Tive a honra de ser a sexta mulher a ocupar a cadeira no Legislativo e fui a mulher mais votada da história de Salto, com 1.591 votos, mas ainda somos invisibilizados. Na Câmara, somos apenas dois vereadores negros. Sem diversidade, políticas públicas essenciais, como saúde da população negra e oportunidades de trabalho, deixam de ser prioridades”, afirma.

Falar da sub-representatividade negra na cidade de Salto é também falar de uma cidade colonizada por famílias europeias, principalmente italianas. “Eu quebrei um paradigma ao chegar nesse espaço, mas na política tentam nos invisibilizar, e isso inclui nossas histórias e as nossas demandas”, complementa a vereadora. 

Ela lembra que sua trajetória é marcada pela luta contra barreiras sociais e institucionais. “Já apresentei 29 projetos de lei, 14 aprovados, mas a resistência é constante. A diversidade impacta diretamente na qualidade das políticas públicas. Quando não há mulheres e negros, as pautas que garantem justiça social não chegam ao debate”, conclui. 

Já no Nordeste, a presença de vereadores negros e pardos tende a ser mais próxima da composição demográfica da população, mas as barreiras relacionadas ao gênero se mantêm. A vereadora Linei Pereira (Maruim/SE), avalia que a ausência feminina compromete a legitimidade da democracia: “Quando não há mulheres nas câmaras, a política local deixa de refletir a realidade do povo. Falta a visão de quem organiza, de quem sofre na pele os impactos das decisões.”

Para ela, a dificuldade não está na capacidade, mas em estruturas que ainda restringem o espaço feminino. “As resistências que enfrentei vão desde tentativas de me descredibilizar até a dificuldade de ser ouvida com o mesmo peso que os homens. Para mudar esse cenário, precisamos ampliar cotas de gênero, garantir financiamento justo e criar mecanismos contra a violência política de gênero, que ainda sofremos mesmo já eleitas”, afirma.

Vereador em Porto Grande (AP), Tárcio Leite reconhece que o Norte é uma região mais diversa e que pode apresentar um equilíbrio como um todo mas, no Amapá, ele afirma não ter nenhum representante negro nas secretarias de estado. “Quando analisamos os espaços de poder, como em Porto Grande, não tivemos nenhum prefeito negro”, pontua Tárcio. 

“Tivemos avanços, como quatro mulheres eleitas entre 11 vereadores, mas ainda nenhuma vereadora negra. Sem essa representatividade, é difícil construir políticas públicas específicas para essa população”, avalia o vereador. 

Ele também destaca as barreiras que os jovens enfrentam para ingressar na política. “Muitos tentaram me descredibilizar pela idade, como se juventude fosse sinônimo de incapacidade. Além disso, a falta de apoio partidário e de recursos é um obstáculo constante. A formação política é essencial para que mais jovens e mulheres negras tenham confiança para disputar cargos”, afirma.

No Sul, a desigualdade racial é a mais acentuada do país. O vereador Jorge Amaro (Mostardas/RS), primeiro negro quilombola eleito no município, lembra que em 60 anos de história apenas três vereadores negros ocuparam cadeiras na Câmara. “Sem diversidade, políticas públicas para igualdade racial, gênero e inclusão simplesmente não existem. Foi só com minha chegada que conseguimos aprovar leis de cotas e incluir a pauta racial na agenda municipal”, relata.

Para Amaro, valorizar a história também é uma forma de transformar a política. “Mostardas sempre foi tratada como uma cidade açoriana, ignorando a presença negra que ajudou a formar nosso território. Uma das primeiras leis que criei foi para reconhecê-la como cidade afro-açoriana. É dar ao negro o lugar que lhe foi negado por séculos”, conta.

Para mudar esse quadro, as lideranças entrevistadas convergem em alguns pontos: formação política, fortalecimento das políticas de cotas, financiamento adequado e incentivo real dos partidos às candidaturas de mulheres e pessoas negras.

“Representatividade não é só ocupar a cadeira, mas garantir que a diversidade da sociedade esteja presente nas decisões”, resume Amaro. Já Graziela reforça: “Precisamos de protagonismo, visibilidade e espaço de fala. Os partidos precisam apoiar candidaturas negras e femininas antes e depois do período eleitoral.”

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