No mês do Orgulho LGBTQIAP+, celebrar conquistas também significa olhar para os desafios que ainda existem. Apesar dos dados subnotificados, a comunidade LGBT representa cerca de 9% da população brasileira e correspondem apenas à 1% das candidaturas nas eleições de 2022, segundo um levantamento realizado pelo VoteLGBT.org. Ainda, ocupam uma parcela reduzida dos cargos eletivos do país. Em contrapartida, avanços como reconhecimento do casamento civil entre pessoas do mesmo sexo, a criminalização da LGBTfobia e o direito à retificação de nome e gênero evidencia o papel da participação política na ampliação de direitos e no fortalecimento da democracia.
Nos cargos eletivos, a sub-representação fica evidente. Estima-se que apenas 0,16% dos mandatos no Brasil sejam ocupados por pessoas da comunidade LGBTQIAP+. Vale ressaltar que não existem dados oficiais sobre essas candidaturas junto à Justiça Eleitoral. No Brasil, há uma lacuna na coleta de dados sobre a população.
O cenário é agravado por desafios como violência política, discriminação e dificuldades de acesso a financiamento eleitoral. Apesar disso, os avanços são visíveis. Em 2022, o Brasil registrou recorde de candidaturas e de pessoas LGBTQIAP+ eleitas para cargos legislativos estaduais e federais, demonstrando que a disputa por direitos também passa pela ocupação dos espaços de decisão.
Mais diversidade
Para Wanessa Fortes, alumni RenovaBR, sua trajetória política está diretamente ligada às experiências vividas como mulher negra e bissexual. O apoio da família, especialmente dos pais, foi fundamental para que seguisse em frente e transformasse a experiência pessoal em motivação para atuar politicamente.
Na sua avaliação, ampliar a presença LGBTQIAP+ nos espaços de poder significa garantir que demandas historicamente ignoradas sejam ouvidas. “Ter representantes LGBT na política, para mim, é a certeza de que a luta muda a vida”, afirma.
Ela destaca ainda que questões como empregabilidade, especialmente para mulheres trans, precisam ser tratadas como problemas sociais e políticos. “Muitas vezes somos deixados de lado, mas seguimos lutando e resistindo”, complementa.
O vereador Willian Carvalho, liderança RenovaBR, de Quatis (RJ) acredita que a presença de pessoas LGBTQIAP+ na política beneficia toda a sociedade. Ele afirma que sua trajetória foi marcada pela percepção de que muitos grupos não se viam representados nos espaços de tomada de decisão.
Antes de ocupar um cargo eletivo, Willian já atuava em projetos sociais ligados à educação, cultura e voluntariado. Para ele, a política surgiu como uma ferramenta para ampliar esse trabalho e garantir que mais vozes fossem consideradas na construção das políticas públicas.
Violência política e barreiras à participação
Apesar dos avanços, as lideranças ouvidas relatam que o preconceito continua presente na vida política. O levantamento da VoteLGBT aponta que 49% das candidaturas LGBTQIAP+ relataram ter sofrido discriminação ou ameaças relacionadas à orientação sexual, enquanto 29% enfrentaram ataques ligados à identidade de gênero. Candidatos e candidatas também relatam dificuldades estruturais para disputar eleições, incluindo casos de sub-financiamento partidário.
Wanessa observa que a LGBTfobia muitas vezes assume formas institucionais. “A LGBTfobia só muda de lugar. Não querem ouvir, fazem piadas e tentam nos escantear antes mesmo de falarmos”, relata.
Willian relata que também já enfrentou tentativas de deslegitimação por sua orientação sexual e por sua identidade racial. “Infelizmente, o preconceito ainda existe e se manifesta em comentários, julgamentos e tentativas de desqualificação”, afirma. Para ele, a resposta passa pela construção de pontes, pela coerência e pelo compromisso com o trabalho público.
Nayana Tulio, Alumni RenovaBR e suplente a vereadora em Mãe do Rio (PA), aponta que ainda existe uma associação equivocada entre a pauta LGBTQIAP+ e estereótipos que buscam reduzir a comunidade à sua vida privada.
“Muitas pessoas ligam a pauta LGBTQIAP+ à vulgaridade. Eu lido com isso mostrando que minha intimidade não interfere na minha competência profissional”, afirma. Ainda, complementa que “é de suma importância haver espaço para as minorias dentro das casas de Leis, isso é ratificar de fato a democracia e dar voz para todos”.
Direitos conquistados, desafios que permanecem
Se os desafios permanecem, as lideranças também reconhecem avanços importantes conquistados ao longo das últimas décadas.
Nayana cita o reconhecimento do casamento homoafetivo e os avanços relacionados à adoção por casais do mesmo sexo como marcos fundamentais para a garantia de direitos.
Wanessa destaca a criminalização da LGBTfobia como uma conquista que reforça a proteção da população LGBTQIAP+ e menciona avanços recentes em seu estado. Em Sergipe, uma emenda constitucional aprovada em 2025 incluiu a identidade de gênero na Constituição estadual, iniciativa que teve participação da deputada estadual Linda Brasil, primeira mulher trans eleita no estado. Ela ressalta que a conquista foi fruto de muito diálogo.
Para Willian, também é fundamental reconhecer a trajetória de quem abriu caminho para as novas gerações. “Precisamos reverenciar aqueles que vieram antes de nós nessa luta para que hoje possamos usufruir dessas conquistas.”
Entre os principais desafios estão o combate à violência política, a ampliação do acesso aos partidos, o fortalecimento de novas lideranças e a garantia de condições reais para disputar eleições em igualdade de oportunidades.
Wanessa chama atenção para outro ponto: a falta de dados oficiais sobre a população LGBTQIAP+ no Brasil. Atualmente, o país ainda possui lacunas importantes na coleta de informações sobre orientação sexual e identidade de gênero, o que dificulta a formulação de políticas públicas adequadas.
“O maior desafio é garantir que os dados da nossa comunidade estejam disponíveis para que possamos entender nossas necessidades”, afirma.