Marjorie Lynn
Diretora de Educação do RenovaBR
A política brasileira continua sendo um dos ambientes mais hostis e resistentes à presença de mulheres, especialmente mulheres negras, indígenas, periféricas e LGBTQIAPN+. Apesar de sermos mais da metade da população e do eleitorado, seguimos dramaticamente sub-representadas. Em 2025, segundo dados do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), apenas 18% das cadeiras no Congresso Nacional são ocupadas por mulheres. Nos municípios, o cenário é ainda mais alarmante: em 737 cidades brasileiras, nenhuma mulher foi eleita vereadora, e só 13% das prefeituras têm mulheres no comando. A interseção entre gênero, raça e território escancara a pergunta que deveríamos estar fazendo há tempos: quais mulheres estão chegando ao poder, e a que custo?
É impossível olhar para esses dados sem falar da desigualdade estrutural que os sustenta. O Mapa da Desigualdade Eleitoral Municipal, lançado pelo RenovaBR, mostra que mulheres candidatas à vereança receberam, em média, 42% menos recursos de campanha do que homens. Essa disparidade no financiamento ajuda a explicar por que a taxa de sucesso eleitoral das mulheres foi de apenas 6,93%, contra 17,1% entre os homens.
Ainda assim, a pergunta mais urgente em 2025 já não é se precisamos de mais mulheres na política. Isso é dado. O que precisamos saber é: como garantir que as mulheres não apenas cheguem, mas permaneçam, exerçam o poder com autonomia, segurança e legitimidade?
A permanência é o verdadeiro desafio. E para enfrentá-lo, é preciso nomear o que nos impede de seguir: sobrecarga com o trabalho de cuidado, racismo institucional, redes de influência masculinas, financiamento desigual e uma cultura política que, até hoje, não foi feita para nós. Esse ambiente não apenas afasta mulheres. Ele adoece, violenta e pune aquelas que “ousam” ocupá-lo.
Mesmo quando vencem as barreiras da eleição, muitas mulheres enfrentam outro obstáculo silencioso: a lacuna de autoridade. A jornalista britânica Mary Ann Sieghart descreve esse fenômeno como o espaço entre a autoridade real que uma mulher tem e o quanto ela é reconhecida como legítima para exercê-la. No Brasil, isso se traduz em vereadoras ignoradas em sessões legislativas, prefeitas desautorizadas por seus secretários e lideranças femininas permanentemente questionadas, mesmo quando mais preparadas do que seus pares. A desconfiança sistemática sobre a competência das mulheres é uma forma de violência simbólica que corrói a democracia por dentro.
Essa deslegitimação contínua se soma a violências mais explícitas. Um estudo recente da Confederação Nacional de Municípios revela que mais de 60% das prefeitas e vice-prefeitas já sofreram violência política de gênero. Os relatos vão de assédio verbal (49%) a pressão psicológica (45%) e até violência física (5,6%). Mais da metade relatou impactos em sua vida pessoal e 36,5% disseram que essa violência afetou diretamente sua capacidade de governar. Isso explica por que tantas mulheres desistem de disputar reeleição ou abandonam a vida pública mesmo após eleitas. A política, como ela está, ainda cobra caro demais das que se atrevem a permanecer.
Apesar de tudo isso, há motivos para sermos realistas esperançosas, como diria Ariano Suassuna. Redes de apoio, movimentos de mulheres negras, indígenas e periféricas, e formações como as que desenvolvemos no RenovaBR, têm sido trincheiras de resistência e transformação. Mais de 1.380 mulheres passaram por nossos cursos. E nas eleições de 2024, 26% das pessoas eleitas da nossa rede são mulheres, quase o dobro da média nacional. Esses números comprovam o que já sabemos: o problema nunca foi falta de interesse, capacidade ou vocação das mulheres. O problema é estrutural.
A formação política é peça-chave, mas não resolve sozinha. É urgente que partidos, Estado e sociedade assumam responsabilidades concretas: distribuição justa dos recursos dos fundos eleitorais, cotas nas direções partidárias, mecanismos eficazes de combate à violência política, políticas públicas que redistribuam o trabalho de cuidado e redes de proteção para que nenhuma mulher precise escolher entre sua saúde mental e seu mandato.
E há caminho para a mudança a partir da cidadania também. A cada dois anos, os brasileiros têm nas mãos a chance de repensar os rumos da política no país e isso inclui a presença das mulheres nos espaços de tomada de decisão. Para além de apontar os obstáculos dentro das estruturas de poder, é urgente reconhecer que a sub-representação feminina também é resultado das escolhas feitas nas urnas. Em outubro de 2026, temos uma nova oportunidade de repensar nosso compromisso coletivo com a igualdade de gênero na política.
Quando as mulheres ocupam o poder, a agenda pública muda. Avançam políticas para a infância, saúde, educação, combate à fome e à desigualdade. Avançam também formas mais colaborativas e empáticas de fazer política. Mas não há transformação com baixa permanência. Não há justiça sem sustentação.
A democracia brasileira não será plena enquanto a política não refletir, na prática, a diversidade de quem somos. Isso significa mais do que contar mulheres. Significa garantir que mulheres negras, indígenas, quilombolas, trans, mães, LGBTQIAPN+, com deficiência e periféricas estejam no centro das decisões. E para isso, não basta abrir a porta. É preciso garantir que elas tenham onde sentar, como falar e que sejam ouvidas.
Se queremos uma política capaz de transformar o Brasil, ela precisa ser feita também por mulheres que historicamente foram empurradas para as margens. E isso exige coragem coletiva: de abrir caminho para aquelas que bravamente se colocam à disposição nas urnas, mas também de sustentar, proteger e cuidar das que já estão dentro.

Foto: Marisa Zimermman
Marjorie Lynn é Diretora de Educação do RenovaBR. Mestre em Ciência Política pela Universidade Federal de Goiás (UFG). Graduada em Gestão de Políticas Públicas pela Universidade de Brasília (UnB) e especialista em Gestão e Políticas Públicas pelo Ibmec. tuou em consultorias de gestão pública de 2016 a 2018. Foi Coordenadora-Executiva de auditoria cívica pelo Instituto de Fiscalização e Controle em 2019. Atuou como Gerente de Controle Social na Controladoria-Geral do Estado de Goiás